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SXSW2018: Uma imersão inspiradora em criatividade e inovação

“Uma boa conferência é uma viagem de férias que você faz com amigos realmente inteligentes”, disse outro dia Naval Ravikant no twitter.

A esta altura, você provavelmente já leu mais de uma dezena de artigos resumindo o SXSW 2018. Talvez alguns possam até ter sido repetitivos, e, se fosse chutar, diria que os pontos em comum seriam a valorização das minorias, a força das mulheres, a aposta em AI, a consolidação do blockchain, entre outros. Mas penso que sempre vale ler mais um porque, afinal, cada pessoa vê o “South by” que quer. São tantos conteúdos interessantes ao mesmo tempo nas várias salas dos diferentes prédios, que deve ser impossível duas pessoas aleatórias verem as mesmas coisas. E essa é a beleza do festival: tem um pouco de tudo para agradar quem se interessa pelo que está acontecendo no mundo e tem curiosidade de saber para onde estamos indo – não importa se você é da tribo da música, do filme, da propaganda, dos negócios ou da tecnologia.

Aliás, é essa mistura de interesses e backgrounds que faz o SXSW ser o que ele é desde a primeira edição, há 30 anos. Há uma atmosfera de inovação e de criatividade que pode ser sentida nos corredores, nos cafés e nas ruas de Austin. E é no meio deste furacão que as ideias florescem e os desafios de comunicação que temos todos os dias ganham novos contornos.

Aqui, alguns highlights do festival pela minha perspectiva:

  1. Em 2018, a conversa não pode mais ser sobre se a tecnologia vai substituir o homem, mas como ela pode nos ajudar a sermos uma versão melhor de nós mesmos. A discussão sobre os empregos que vão acabar perde força à medida que realizamos a quantidade de novas demandas que vão surgir.
  2. Vamos ter abundância de tempo. Com a ajuda da tecnologia, muitas tarefas serão mais produtivas e poderemos nos dedicar a outras atividades mais interessantes. O que faremos, por exemplo, durante o tempo que passaremos em um carro autônomo? Nesta e em outras discussões sobre o futuro do lazer, os games se consolidam como um esporte, com direito a times organizados, jogadores celebridades, e transmissões em plataformas digitais especializadas, como o Twitch, que acabou sendo comprado pela Amazon.
  3. O blockchain é uma resposta à crescente demanda por transparência em todos os setores da vida em sociedade. Eleições serão mais claras, transações financeiras dispensarão bancos, fontes das notícias poderão ser checadas, a autenticidade das cadeias de suprimentos poderão ser avaliadas. Teremos muito mais informação para tomar melhores decisões e fazer escolhas baseadas em confiança.
  4. Os avanços na saúde vão nos permitir viver mais, e teremos diversas carreiras ao longo da vida. O empreendedorismo surge como uma importante alternativa para as pessoas com mais de 50, pois unem a sabedoria que conquistaram em suas carreiras com o tempo e a situação financeira mais favorável nesta altura da vida. Mas é preciso se manter curioso e com isso surge o conceito do “modern elder”, ou “idoso moderno”.
  5. As recentes revelações sobre o envolvimento dos russos na manipulação das eleições americanas através do Facebook colocou o já conhecido problema das fake news em outro patamar. A questão é de segurança nacional e terá consequências graves para a credibilidade desta e de outras plataformas – que, de uma vez por todas, terão que se posicionar sobre se são de fato plataformas ou veículos/publishers.
  6. Todas as grandes empresas de tecnologia estão sendo chamadas à responsabilidade pelo conteúdo que veiculam – sejam notícias, anúncios, vídeos ou memes. Cresce a expectativa de uma curadoria e até de uma fiscalização mais intensa do conteúdo, o que por outro lado desperta discussões e questionamentos sobre neutralidade e liberdade – e não menos importante, sobre modelo de negócio, já que plataformas como Facebook, YouTube, Twitter foram construídas com base em “ad revenue”. De qualquer modo, já existe uma nítida sensação de que o preço que pagamos pelo acesso irrestrito às redes sociais foi alto demais, na medida em que demos em troca nossos dados pessoais. É assustador pensar que meia dúzia de empresas detêm uma quantidade absurda de informações sobre nossas vidas e que não sabemos o que podem vir a fazer com isso.
  7. Além disso, Sillicon Valley está tendo que lidar com outras acusações, como as de que seus engenheiros desenharam produtos e aplicativos com a intenção de transformar usuários em dependentes. Nomes como Tristan Harris têm sido citados para embasar conversas sobre como a tecnologia impacta nossas vidas, e como podemos nos proteger destes efeitos e ter uma relação mais saudável com ela.
  8. Inteligência artificial foi tema recorrente, mas mais relevante do que discutir suas aplicações práticas, é reconhecer o risco de que as máquinas estão “aprendendo” com os humanos – e que, com isso, jamais serão neutras. Segundo Ray Kurzweil, um dos fundadores da Singularity University, não há diversidade cultural, racial, social e econômica suficiente entre os engenheiros que programam as máquinas para mitigar os riscos de ‘bias’. É um problema complexo e de difícil solução, e teremos que definir alguns limites.
  9. Robôs são uma alternativa inteligente para substituir o homem em situações arriscadas, enfadonhas ou que precisem de alta capacidade técnica. Desde os bots que já estão sendo utilizados pelas empresas há tempos para agilizar o serviço de atendimento ao consumidor, até os avatares, que nos planos de Peter Diamandis, substituirão policiais e bombeiros em missões perigosas, farão cirurgias e pequenos consertos, além de cuidar das crianças quando os pais quiserem sair para jantar.
  10. As marcas estão vivendo tempos difíceis: mais do que transparência, os consumidores hoje estão exigindo um posicionamento cívico e político em questões que envolvem a vida em sociedade. Foi bastante comentada em vários painéis a recente iniciativa da rede de lojas de artigos esportivos Dick’s Sporting Goods, que depois da tragédia de Parkland, na Florida no mês passado, anunciou que deixaria de vender armas a menores de 21 anos, além de tirar de seu catálogo determinados tipos de armamentos considerados mais pesados – uma forma de pressionar por leis mais restritivas quanto ao comércio de armas no país.

Esta foi minha primeira vez no festival, e voltei decidida a retornar em 2019. Mas minha conclusão foi de que o que SXSW faz de melhor para todos os que lá estão não são necessariamente as palestras, ou os workshops. É a pausa na rotina para oxigenar a mente e se deixar inundar por novas inspirações.

E mesmo apesar de tantas dúvidas e questionamentos, fico com otimismo de Ray Kurzweil e Elon Musk sobre o momento presente. “It’s a great time to be alive”.

Autores

Diretora de Desenvolvimento de Negócios e Comunicação