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Claudio Edinger fala sobre a arte de criar a marca LATAM

Uma companhia aérea nos ajuda a encontrar nosso lugar, a focar e entender quem somos. E, nos levando a lugares longe da nossa zona de conforto, expande nosso próprio conceito de identidade.

As imagens do fotógrafo Claudio Edinger se imprimem na sua mente: as fotografias são carregadas de presença, não apenas das pessoas e lugares que captura, mas também de seu observador. Seu foco seletivo, uma técnica que virou sua marca registrada, convida o público a conversar com sua obra. Algumas de suas imagens mais memoráveis são cenas icônicas como a da bohemé de Nova Iorque, o Chelsea Hotel e a Venice Beach de Los Angeles, ambas no final dos anos 70 e início dos anos 80. Edinger mergulha fundo em espaços que transbordam emoção – como  os registros de um hospício – e viaja o mundo explorando os corações de grandes cidades e capturando a alma de cada lugar fotografado.

Faz sentido que a LATAM tenha procurado um artista brasileiro para ajudar a criar uma marca que se tornaria instantaneamente memorável.  O novo Grupo LATAM Airlines mirou construir uma identidade visual que definiria a nova companhia aérea enquanto desenha sobre as raízes latino-americanas das duas marcas. Edinger, por sua parte, mantém fortes conexões pessoais e artísticas com a região – e com viagens. Nascido no Rio de Janeiro, iniciou sua carreira na fotografia em São Paulo em 1975 e passou décadas explorando o mundo por meio de sua lente. Em 2000, o fotógrafo voltou ao Brasil para trabalhar em seu ensaio fotográfico em andamento, começando com Rio, um estudo em preto e branco de sua cidade natal, publicado em 2003.

Para Edinger, as fotos para LATAM são parte de seu ensaio pessoal – e é um trabalho do qual se orgulha, particularmente. O projeto de branding (seu primeiro) o levou a locais no Brasil, na Argentina, no Chile, no Peru, na Colômbia, no Uruguai e no Equador. O trabalho é distintamente do Edinger – fine art que transcende meras propagandas de viagem. Não há metrópoles glamurosas ou paisagens exageradas de praias, exibindo turistas sorridentes. Cada foto oferece uma visão aérea impressionante, porém intimista, de algum canto da América Latina, enquadrada de uma forma que literalmente impele o observador a explorar a cena.

As fotos foram selecionadas pelo diretor criativo da Interbrand São Paulo, Sergio Cury, e representam o espírito da nova LATAM – complementando o logo, o design do livery e experiências sobre as quais a Interbrand desenvolveu a nova identidade. Somos privilegiados não apenas por colaborar com Edinger, mas por também conversar com ele sobre seu trabalho recente no projeto. Edinger dispõe de insights fascinantes sobre como artistas e marcas podem se beneficiar ao trabalharem juntos – ambos podem construir conexões mais fortes com as pessoas e obter um conhecimento mais profundo sobre si mesmos.

Leia a entrevista a seguir:

Como você se envolveu com a LATAM? Você já trabalhou com branding dessa forma antes?

A Interbrand fez contato comigo – sou muito envolvido em trabalhos de fine art, produzindo obras que me interessam e vendendo a colecionadores por meio de três galerias diferentes no Brasil. Eu nunca fiz nada assim antes.

Como você se organiza para casar a fine art com o branding? Você tem a mesma liberdade criativa nesse contexto que você tem com seus outros trabalhos?

Houve um momento em que ambas as necessidades – as de LATAM e as minhas próprias – convergiram. Nos últimos vinte anos, tenho desenvolvido uma narrativa pessoal que foca no significado de identidade. Por vinte anos vivi e trabalhei na cidade de Nova Iorque. Depois de tanto tempo longe de casa, meu trabalho se centrou na busca sobre o que significa ser brasileiro. Fotografar a América Latina expandiu minha busca de uma forma maravilhosa. Descobri que nossos vizinhos também ajudam a determinar quem somos.

Muito de sua fotografia explora as conexões entre pessoa e lugar. Há algo nessa conexão que seja importante ao contar a história da marca LATAM?

Acredito que uma companhia aérea faz exatamente isso: nos conecta aos lugares – e esses lugares determinam quem realmente somos. De uma forma, uma companhia aérea é como o sangue que flui nas veias do mundo, que mantém o corpo – o planeta – vivo e em constante evolução.

Seu foco seletivo carrega certo simbolismo ou significado no contexto dessas duas marcas se unindo?

A maioria das pessoas não percebem, mas o foco seletivo é como a gente realmente vê as coisas. Ao ler esse texto, você foca nas palavras e no lugar sem qualquer esforço e todo o resto fora de foco. Vemos tudo focado e desfocado ao mesmo tempo – esse é o paradoxo da visão. Uma companhia aérea nos ajuda a encontrar o nosso lugar, nos ajuda a entender quem somos. E, nos levando a lugares longe da nossa zona de conforto, expande nosso próprio conceito de identidade ao mesmo tempo.

Quais foram os maiores desafios criativos desse projeto? Qual foi o aspecto que você mais gostou?

Fotografar lugares que já foram fotografados tantas vezes, só que com novos olhos e uma nova abordagem. Isso é o que me interessa: as infinitas possibilidades de fotografar lugares conhecidos. É muito bom descobrir a magia da fotografia em ação e as intermináveis possibilidades visuais de todos os lugares.

Como uma pessoa inspirada por viajar intensamente, como você descreveria a conexão que as pessoas têm com marcas de companhias aéreas?

As companhias aéreas podem ou realizar ou estragar sua viagem.

Parece que as marcas estão se esforçando mais do que nunca para se conectar com as pessoas do mundo real. Você acha que artistas podem ajudá-las a fazer isso mais efetivamente – e mais autenticamente?

Sim. Artistas procuram por respostas. Têm o objetivo de levantar questões importantes sobre quem somos. Estão em constante movimento e isso reflete em seu trabalho. Assim como as companhias aéreas, estão em fluxo constante. Temos muito em comum. Amamos voar, em todas as direções. Quebrando todas as regras – eu, especialmente, gosto de desafiar a lei da gravidade.